Rui A. Pereira, Director Artístico do Museu Jorge Vieira
Sobre a obra de Carlos Mendes

Carlos Mendes, ao entrelaçar elementos imprevisíveis, agita o nosso olhar com figuras que ostentam a eloquência da matéria colorida: peças escultóricas, com vestes cerâmicas, pedaços de azulejo numa atmosfera que expõe o adereço, refletindo um inefável estigma urbano e algo psicadélico. O jogo da cor é subordinado ao semblante azul com um bigode dourado serpenteante; e os olhos constantes fixam-nos na sua dianteira, tal como, uma câmara de vídeo que nos espia como um ser “único”, sublime, limpidamente azul, de epiderme e sangue azul, rei, deus, faraó, onde tudo oscila entre o ideal de beleza de um corpo esbelto – pera ondulante, belas ancas, nádegas aparatosas e longas pernas de um arquétipo de beleza que se passeia pelos corredores da moda que nos revela a nossa aparência mais efémera de uma juventude que se apaga com o deambular da vida. Porém, no fascínio pelo corpo, pelos seios que nos avistam… na plenitude suculenta de dois rebentos que nos matam com o olhar, se acentua-se a inquietude do ciclo efémero da vida.

Numa das peças, a preto e branco, adivinhamos os bigodes dum gato sorridente; e na configuração feminina da gata mulher de gola alta, trela fictícia, ardência indomável, indomesticável, um ser libertino tomado pela libido; uma outra escultura desnudada se sucede, esta, de laço, óculos, e encaixe de um soutien, expondo o seu cerne, no cruzamento viril do enfeite do homem com a mulher, que se manifesta pela sua compleição - o corpo, a máscara, os adereços instrumentos de ornamentação que dilatam a ideia do objecto de sedução, exalam o aroma, o odor da matéria, o pigmento de infinitas cores, da mulher do mundo. Com efeito, tudo se transforma em mais um pretexto para o envaidecimento desta entidade, tal como, a máscara expressa, a saída do cabeleireiro da manicura e do corpo imaginado, do corpo trabalhado, adulterado, ficcionado, joia da coroa, rainha branca ou preta, vermelha ou azul, verde ou amarela, ou mesmo mesclada, arco-íris, íris do nosso olhar de contemplação...

Modelo, ícone de todos os tempos, exemplo perfeito para o jet-set E mais uma saída nocturna pela vida boémia, palco das estrelas do nosso ecrã, nosso mundo da ribalta, o do cinema de Hollywood ou da telenovela, da revista de bordel ou da coluna social, do paparazzi e, na extremidade de um seio, avistamos o ralo de um bidé, um binóculo, uma saída para o precipício... Num outro busto poisa uma cruz, um Cristo, um colar que surge sucedido por um puxador de uma porta do eldorado? O artista parece querer mesmo converter-se num símbolo sexual e entrar, determinado, no mundo ficcionado pela TV, em júbilo, e anunciar-nos as novas Bond Girls – neste caso Mendes Girls, o novo herói, o artista criador de todo um mundo ilusório de sucesso... Numa fotografia que nos dá a conhecer, é o próprio autor que se apresenta em acção a pegar com o seu punho, firme, uma arma e disposto a proteger-nos de uma qualquer presença indesejável. Carlos Mendes é, nesta situação, o actor principal deste filme de acção Victim of Art; e em um soldado em companhia de uma borboleta, numa sua obra escultórica, alude-nos ao voo da paz colorida.

Sem equívocos, o artista, adopta signos, objectos do quotidiano captado pela nossa memória massificada, freneticamente, pelo consumo fácil da bota de cano alto, da lingerie Os seus trabalhos apreendem a cor intensa e cintilante do deslumbramento por objectos comuns - o padrão Playboy, os ídolos, as figuras impessoais, sem rosto, expressam o prazer fácil, e simulado, um clima despojado de alma. Este trabalho declara o quanto ilusório e virtual é a expressão de um mundo contemporâneo consumido, ele próprio, pelo materialismo da sociedade. A multiplicação dos modelos, manequins sem rosto, ou das máscaras, com inúmeros adereços e penteados, são peças, que celebram de forma premeditada os clichés da loja - os últimos gritos da moda, expostos na montra num completo conjunto decorativo. O autor assume, pois, muitas vezes, o anonimato do retratado, do manequim, para poder evidenciar o mundo dos adereços, dos objectos de consumo. Por outro lado, podemos ainda encontrar a sátira social pura, na representação da Mãe Pátria no corpo do galo de Barcelos – símbolo supremo da nacionalidade verde e vermelha, com o ponto central amarelo. Num outro galo, O Homem Metrosexual este, com um busto que sobrevém a negro do fundo vermelho emerge uma face que se ostenta perante o nosso olhar.

Carlos Mendes, para além das suas peças escultóricas, confidencia-se em outras formas de expressão plástica e que envolvem a pintura, o desenho, a fotomontagem, a colagem e a instalação. Ícones da cultura nacional, como os do Fado, surgem com Amália Rodrigues, numa colagem associada a pintura, desenho e imagens fotográficas recortadas de revistas da imprensa. A composição é animada por duas pernas envolvidas por um texto de jornal, onde poisa o rosto da diva, enquanto, o seu corpo andante, a sua cadência musical, deambulam por cima de um braço de uma guitarra clássica portuguesa; ao centro um microfone, na direcção do olhar da fadista, e próximo, uma mão distinta com um brilhante e unhas pintadas ao rubro. Estamos, por conseguinte, perante um quadro que advém do espectáculo fantasioso, ao vivo, onde nasce, inclusive, um sol e podemos ver ainda o mar, que adivinha o horizonte Num plano mais avançado, em tons castanho, poderíamos conjecturar ainda o avistar da terra, mas o que, de facto, encontramos é uma escada com um conjunto de degraus que nos conduzem até à fama.

O autor inquire na generalidade das suas peças uma configuração que abraça o gosto aceite. Uma obra popular dentro do espírito pop pois esta comunica por meio de imagens facilmente, assimiláveis, reconhecidas e idolatradas pela cultura de massa. Neste sentido se enquadra a actriz Marilyn Monroe, um jogo futebolístico entre galos, a miss Portugal, um passeio turístico pela baixa da cidade de Lisboa, com um conjunto de pin ups, em trajos menores, a exibirem o seu bronze veraneante; e em muitos outros comediantes o autor adopta a opulência da cor e da matéria a bronze e dourado. Mas o frenesim dos tempos modernos é também captado pelo autor: os traços característicos do consumo gratuito que congrega, entre outras coisas, a vivência da BD, as histórias da nossa memória colectiva, o mundo da publicidade e do ecrã televisivo ou do cinema. Tudo é, pois, sedução, luxúria e ostentação, através do objecto do desejo - e a concepção plástica não está, nem nunca esteve imune às representações do estrelato e à vertente irónica.
 
         
         
     
DIÁLOGO DE EMOÇÕES - O SONHO
Por Armanda Ferreira, sobre a Escultura MATERNIDADE

Deitado acariciei docemente o teu ventre doirado que, nos últimos meses, ia ganhando uma forma mais arredondada e aumentando de volume.

Olhei-o com ternura, semicerrandoos olhos na tentativa de adivinhar o mistério que ele ocultava.

Foi então que me pareceu ver uma imagem difusa, semelhante a um nicho.

Mas o que faria um nicho ali aninhado no teu ventre?!

Aproximei a minha face até tocar a tua pele e concentrrei-me o mais que pude naquela imagem, que se foi tornando a pouco e pouco mais nítida. E o que a princípio parecia ser um nicho foi tomando a forma de um altar de beleza rara, em cujo interior se encontrava um pequeno vulto, era então esse o teu tesouro que tão secretamente guardavas no teu ventre.

E esse pequenino ser resplandecia de luz de beleza!

Sustive a respiração para que pudesse ouvir com mais clareza o bater do seu coraçãozinho.

Foi o sonho mais lindo que eu já tive e se veio a tornar realidade!
 
     
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